O Que Devo Saber Sobre Fertilidade?

O Que Devo Saber Sobre Fertilidade?
Do Ovócito à Gravidez
O ovário é a estrutura responsável pela produção e libertação periódica de gâmetas femininos (ovócitos) e hormonas (sinais químicos como o estradiol e a progesterona).

O ovócito é a maior célula do nosso organismo, com um diâmetro aproximado de 120 μm nas fases finais de desenvolvimento. Comparativamente, a cabeça do espermatozoide tem um diâmetro entre 2,5 a 3,5 μm.

! A mulher produz cerca de 500 ovócitos ao longo da vida.
! O homem produz cerca de 100 milhões de espermatozoides por ejaculação.
Dos 100 milhões de espermatozoides, um terá de conseguir unir-se ao ovócito, num processo que se chama fecundação.
A fusão do espermatozoide com o ovócito produz uma série de alterações originando o zigoto, que vai depois dividir-se, originando um embrião cada vez mais complexo.
Aproximadamente 5 dias após a fecundação o embrião (nesta altura designado por blastocisto) atinge o útero e, ao 6º dia, está apto para iniciar a implantação (ligação ao útero) e a gravidez.
Ciclo Menstrual e Período Fértil
O que é?
O ciclo menstrual pode ser visto como uma preparação para a gravidez, que vai desde a obtenção de um ovócito, capaz de ser fertilizado pelo espermatozoide e originar um embrião, à preparação do útero, para a implantação desse embrião. Todo este processo está devidamente sincronizado e é mediado por hormonas (mensageiros químicos).
Na mulher, a secreção de hormonas como a FSH (Hormona Folículo Estimulante), LH (Hormona Luteinizante), estradiol e progesterona é essencial na regulação das alterações ováricas e uterinas no ciclo menstrual.
Qual a sua duração?
O ciclo menstrual tem uma duração média de 21 a 35 dias (tempo entre menstruações).
De referir que a maioria das mulheres (65%) tem ciclos entre 25-30 dias e apenas 13% têm ciclos de 28 dias. Ou seja, é perfeitamente normal ter ciclos entre 21 e 35 dias!
Quais as suas fases?
O ciclo menstrual inclui,
- Fase folicular (primeira metade do ciclo): desenvolvimento do ovócito.
- Ovulação
- Fase lútea (segunda metade do ciclo), preparação do útero para a implantação do embrião.
- Implantação/Menstruação

Fase folicular
A primeira fase (fase folicular) caracteriza-se pelo recrutamento e desenvolvimento folicular estimulados pela FSH.
Cerca de 7 dias após o início da menstruação, os folículos têm já 9-10mm (chamam-se folículos antrais), e o endométrio (camada de células que reveste o útero) torna-se mais espesso.
O crescimento folicular mantêm-se e, com ele, os níveis de estradiol aumentam até atingirem um valor máximo, aproximadamente 1 dia antes da ovulação, a meio do ciclo. Nessa altura, verifica-se também um pico de LH.
Ovulação
A ovulação ocorre aproximadamente 36h após o pico de LH.
Teoricamente a ovulação acontece ao 14º dia do ciclo. No entanto, há que perceber que o dia da ovulação está dependente do ciclo menstrual e da sua duração.
Se estivermos perante ciclos menstruais mais curtos, a ovulação acontecerá mais cedo, e face a ciclos menstruais mais longos, a ovulação será mais tarde. Em média a ovulação acontece ao 17º dia sendo que pode variar entre o 10º e o 26º dia.
Estão disponíveis kits de utilização domiciliária e com elevada sensibilidade para doseamento urinário da LH. As características do muco cervical são consideradas sinais indiretos da ovulação. Nesta fase o muco deve ser transparente e mais fluido de forma a facilitar a progressão dos espermatozoides.
Uma vez libertado, o ovócito mantém-se viável por 24 horas enquanto os espermatozoides mantêm a sua capacidade fecundante até 72 horas.
Fase lútea
A segunda fase do ciclo (fase lútea) é dominada pelo aumento da concentração da progesterona que se manterá elevada se o ovócito for fecundado e implantar no endométrio. Caso contrário, o declínio do estradiol e da progesterona resulta na descamação do endométrio (camada de células que reveste o útero) e no início da menstruação.
Menstruação
A menstruação corresponde à descamação do endométrio (camada de células que reveste o útero) quando não há implantação do embrião no útero. Pode durar entre 3 a 7 dias e é normal que haja a libertação de entre 30 a 40 ml de sangue.
Algumas mulheres têm menstruações muito fortes, associadas a grandes volumes de sangue (menorragia) e/ou dores muito intensas (dismenorreia). Cerca de 15% das mulheres têm dores severas.
Por seu turno, algumas mulheres não têm menstruação (amenorreia) o que indicia a ausência de ovulação.
Quando é mais provável engravidar?
A janela fértil (período em que a probabilidade de engravidar é maior) refere-se aos 3-5 dias que antecedem a ovulação (incluindo o dia da ovulação).
Do ponto de vista clínico é muito importante ter a noção que a real probabilidade da conceção mensal, em casais sem limitações, corresponde a 20-25% por ciclo menstrual, sendo a idade da mulher é um dos fatores determinantes.
Estão disponíveis kits de utilização domiciliária e com elevada sensibilidade para doseamento urinário da LH. As características do muco cervical são consideradas sinais indiretos da ovulação. Nesta fase o muco deve ser transparente e mais fluido de forma a facilitar a progressão dos espermatozoides.

Reserva Ovárica
O que é?
Reserva ovárica ou “número de ovócitos disponíveis no ovário”
Ao longo da vida da mulher, há um decréscimo natural da reserva ovárica.
Ao nascimento, existem 1 a 2 milhões de ovócitos.
A partir da primeira menstruação, os cerca de 300 000 ovócitos existentes, são, mensalmente, ativados para que se desenvolvam.
A partir dos 30 anos, existem cerca de 250 000 ovócitos (aproximadamente 12% da reserva inicial).
Aos 40 anos, verifica-se o decréscimo mais acentuado, com uma redução a 60 000 ovócitos (aproximadamente 3% da reserva inicial). Deste modo, dos milhões de ovócitos que estavam presentes aquando do nascimento, apenas cerca de 500 maturam durante a vida de uma mulher. A referir que entre os 40 e o 45 anos há também um decréscimo do número e qualidade espermática.

Atenção: esta não a correlação entre idade e reserva ovárica não é linear! Existem outros fatores que influenciam o número de ovócitos disponíveis!!
Como se quantifica?
Os marcadores atualmente conhecidos para avaliar a reserva ovárica são Hormona Anti Mülleriana (analisada através de uma colheita de sangue) e a Contagem de Folículos Antrais (obtida por ecografia).
Marcador químico – Hormona Anti-Mulleriana (HAM)
A HAM é um mensageiro químico que é produzido pelos folículos pré-antrais e folículos antrais de menor dimensão, que é possível dosear através de uma simples colheita de sangue.
Sendo um produto dos folículos em desenvolvimento no ovário, a sua concentração está diretamente relacionada com o número de folículos presentes e, por isso, o número de óvulos disponíveis.
Nesta lógica, um valor mais alto de HAM corresponde a uma reserva ovárica maior. Ainda assim, é importante ressalvar que esta não é uma relação linear, e o valor da HAM pode ser influenciado por outros fatores.

Ecograficamente – Contagem de Folículos Antrais (CFA)
A CFA é, como o nome indica, uma contabilização do número de folículos antrais observados nos ovários, por ecografia. Esta é uma análise complementar da quantificação da HAM e deve ser feita entre o 2º e o 4º dia do ciclo menstrual.

Qual a sua relação entre potencial reprodutivo e fertilidade da mulher?
Em mulheres sem história de infertilidade
Para mulheres sem história de infertilidade, a avaliação da reserva ovárica é um auxiliar no aconselhamento reprodutivo.
Em mulheres inférteis
Os valores da HAM e da CFA relacionam-se com a resposta à estimulação ovárica controlada no contexto das técnicas de Procriação Medicamente Assistida(PMA).
Mulheres com valores mais baixos de HAM e CFA (reserva ovária diminuída) estão associadas à recuperação de um menor número de ovócitos.
Fatores Que Afetam a Fertilidade
Infertilidade
Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), infertilidade é a ausência de gravidez após um ano de relações sexuais sem contraceção ou associada a uma limitação na reprodução de forma individual ou com o seu companheiro(a).
A nível mundial a infertilidade afeta 1 em 6 casais em idade reprodutiva.

As situações de infertilidade afetam de modo praticamente igual os dois géneros. Cerca de 25% dos casos de infertilidade devem-se a fatores masculinos e outros 25% devem-se a fatores femininos. Cerca de 10% dos casos mantêm-se sem explicação.

Problemas Obstrutivos
Obstrução das trompas de Falópio (14 a 25% dos casos de infertilidade feminina) leva ao bloqueio da passagem dos gâmetas e pode dever-se a um processo infecioso ou cirurgia.
A historossalpingografia e a laparoscopias são os exames que permitem avaliar se há permeabilidade ou bloqueio tubar.
Distúrbios Ovulatórios
Os distúrbios ovulatórios (20-30% dos casos), história de ciclos irregulares (inferiores a 21 dias ou superiores a 35 dias), podem traduzir-se em anovulação (inexistência de libertação do ovócito), fundamentalmente, por distúrbios hormonais, com destaque para a Síndrome dos Ovários Poliquísticos (SOP).
A SOP é a alteração hormonal mais frequente na mulher, afetando entre 9 a 18% das mulheres em idade reprodutiva. Caracteriza-se por um elevado número de folículos (observados por ecografia), hiperandroginismo (produção de hormonas maculinas que se traduz em acne, hirsutismo ), ausência de ovulação e obesidade.
Endometriose
A endometriose (10% dos casos) define-se pela presença de tecido endometrial fora do útero (trompas de Falópio, apêndice, pulmões, fígado, trato gastrointestinal entre outras), associada a inflamação e dor intensa associada à menstruação.
A Ressonância Magnética é o método de diagnóstico preferencial da endometriose.
Idade
Sobretudo na mulher, mas também no homem, ocorre um declínio da fertilidade com o aumento da idade. Assim, as recomendações atuais vão no sentido de se avançar para avaliação inicial de infertilidade em mulheres acima dos 35 anos e cuja gravidez não ocorra em 6 meses.